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Uma Questão
de Concepção e Interpretação
O objetivo deste texto é mostrar a importância
da interação entre o engenheiro geotécnico
e o engenheiro calculista de estruturas. Quanto mais cedo
ocorrer, mais seguros e econômicos serão os resultados
para o cliente. Os casos escolhidos e descritos neste artigo
mostram de uma maneira conceitual alguns exemplos significativos.
1. Casos de fundação onde a interpretação
do perfil do sub-solo leva o geotécnico a indicar
ao calculista que concentrar cargas em menor número
de pilares é mais eficiente do que distribuí-las.
De modo geral o partido estrutural é condicionado
por decisões arquitetônicas já tomadas.
Entretanto, existem situações nas quais
o calculista estrutural tem um certo grau de liberdade
para decidir entre concentrar cargas ou distribuí-las.
Quando as características do terreno permitem
o emprego de tubulões escavados manualmente,
deve-se procurar evitar cargas de pilares inferiores
a cerca de 150 KN, pois o diâmetro do fuste, por
razões construtivas, no mínimo de 70 cm,
permite um dimensionamento para suportar cargas de até
200 KN . Empregar esta solução para cargas
inferiores a 150 KN implica em fustes super dimensionados
e portanto anti-econômicos.
2. Casos nos quais a estrutura é calculada como
pórtico com seus apoios engastados
Com o emprego da computação, através
de computadores cada vez mais potentes e programas mais
acessíveis e sofisticados para o dimensionamento
das estruturas, está havendo uma tendência
de se projetar com um grau de refinamento cada vez maior,
o que acarreta estruturas mais econômicas, e,
ao mesmo tempo, mais arrojadas, de tal forma a atender
às exigências arquitetônicas.
Por outro lado, nos parece que as melhorias das ferramentas
de cálculo não foram devida e paulatinamente
acompanhadas pelas hipóteses feitas para simular
a interação solo-estrutura. Na verdade
não faz sentido separar a super da infra-estrutura
nos seus dimensionamentos.
Onde a situação fica mais evidenciada
é aquela do cálculo dos esforços
nas fundação devido à ação
de solicitações transversais (vento ou
a empuxos desbalanceados) que podem levar a esforços
e carregamentos distantes do real.
De modo geral o modelo de cálculo empregado
admite que os pilares estejam engastados nas fundações,
o que implica no aparecimento de momentos elevadíssimos
e irreais. A consideração da flexibilidade
das fundações pode alterar completamente
o panorama simplista de engaste, principalmente quando
a rigidez dos pilares, de um determinado pórtico
for muito diferente.
Nestes casos pode-se lançar mão de um
redimensionamento dos esforços na estrutura,
alterando a rigidez das fundações, ou
seja, pode-se propositadamente projetar um ponto de
apoio com uma maior flexibilidade para que o momento
resultante seja minimizado.
O grande poder da ferramenta de cálculo da super-estrutura
pode tornar-se mal utilizado face às hipóteses
de cálculo simplistas que eventualmente são
usadas para simular o comportamento das fundações.
A participação do geotécnico desde
o início da concepção, contribui
para que uma parcela bem maior de casos fossem calculadas,
processando-se a estrutura junto com a fundação,
levando o sistema estrutura-fundação a
um desempenho mais realista, mais seguro e mais econômico.
3. Casos de estruturas enterradas ou semi-enterradas,
onde o processo executivo pode influir nos carregamentos,
e consequentemente, no dimensionamento ou solução
estrutural
O geotécnico também tem como escopo do
seu trabalho, o acompanhamento técnico sistemático
durante a execução das fundações,
contenções, aterros, etc.
É possível que o engenheiro de fundações
tenha uma visão mais pragmática quanto
aos aspectos construtivos, especialmente em estruturas
enterradas, os quais podem condicionar o projeto.
Os esforços de empuxo de terra dependem das
deformações que lhes são permitidas.
Assim, o processo executivo e as fases construtivas
podem condicionar as deformações e consequentemente
os esforços que terão que ser suportados
pela estrutura.
4. Casos onde a mistura de tipos de fundação
é necessária
De modo geral procura-se sempre empregar o mesmo tipo
de solução de fundação para
uma mesma estrutura. Na verdade, o que se procura é
que as fundações de uma dada estrutura
tenham um comportamento homogêneo quanto a recalques.
Para que este requisito seja satisfeito, é possível
que em alguns casos, seja imperioso misturar tipos de
fundação diferentes numa mesma edificação.
Os exemplos seguintes ilustram o argumento:
Quando há acentuadas variações
do perfil geotécnico do solo dentro do mesmo
terreno; por exemplo, um terreno muito firme na superfície
em uma área, e no extremo oposto do terreno este
substrato pode mergulhar obrigando o emprego de fundações
profundas,
Quando existem cargas de magnitudes muito diferentes
e não se pode criar juntas.
Quando o processo executivo faz com que determinadas
partes da estrutura sejam erguidas antes que outras,
acarretando que parte das fundações sejam
solicitadas (e deformadas) antes das restantes. Esta
situação é comum em edifícios
altos quando se decide subir com a caixa de escada e
elevadores com formas deslizantes, e posteriormente
executar o restante da estrutura.
Quando se opta por empregar um tipo de fundação
para os pilares de divisa de tal sorte a diminuir as
excentricidades.
5. Casos de fundação direta onde a condição
de rigidez imposta pelo cálculo estrutural pode
ser equivocada
As fundações diretas geralmente acarretam
recalques maiores para a estrutura do que as fundações
profundas em estacas. Recomenda-se neste tipo de fundações
verificar os esforços adicionais na estrutura
decorrente dos recalques diferenciais.
Cabe ao engenheiro geotécnico verificar a possibilidade
de ocorrer recalques diferenciais significativos e recomendar
ao calculista estrutural considerá-los nos cálculos.
A possibilidade de recalques diferenciais é decorrente
da interpretação do perfil geotécnico
enquanto sua magnitude depende dos parâmetros
geotécnicos dos solos envolvidos.
Conclusões
A contínua otimização e sofisticação
das estruturas leva à necessidade de se contar
com ferramentas de cálculo cada vez mais poderosas.
O emprego destas ferramentas só é realista
se o comportamento dos solos e das fundações
for considerado como parte integrante do modelo de cálculo
da estrutura, e para tal é fundamental a participação
do engenheiro geotécnico desde a concepção
do empreendimento.
Associação
Brasileira de Empresas das Projeto e Consultoria em
Engenharia Geotécnica
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