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Onévio Antônio Zabot
.......No momento,
em que uma estiagem de graves proporções atinge
o Sul do País, cabe uma reflexão mais acurada sobre
as políticas públicas de preservação, conservação
e reservação de recursos hídricos.
.......A chamada "aldeia
global" de MacLuhan tem muitos desafios pela frente,
mas certamente nenhum proporcional à questão da
água. A falta d'água é uma ameaça real, e o comprometimento
de sua qualidade - como a espada de Dâmocles - pende
sobre a cabeça de todos.
.......Sabemos que
o ciclo das secas e das inundações acompanha o homem
ao longo de sua trajetória no planeta Terra. Com
o crescimento populacional em curso (projeções apontam
para 9,3 bilhões de habitantes até 2050), haverá
pressão brutal sobre os recursos naturais remanescentes.
.......É inegável
a contribuição da engenharia hidráulica em obras
para assegurar a disponibilidade de água e conter
inundações. Deve-se a essas intervenções o povoamento
de muitas áreas outrora inóspitas e insalubres.
Boa parte do território holandês provém de áreas
marinhas.
.......Quanto ao Brasil,
embora detenha posição privilegiada, dispondo em
torno de 20% das reservas mundiais de água doce,
apenas engatinhamos em termos de políticas públicas
pertinentes. Nossas safras, afora as irrigadas que
mal atingem 10% da área cultivada, estão literalmente
nas mãos de São Pedro (o verdadeiro ministro da
Agricultura), como diz o adágio popular.
.......Em nível federal,
desde o governo Sarney, muito pouco se fez para
melhorar o setor, exceto muita demagogia. O Programa
Nacional de Irrigação (Proni), que entre outras
medidas realizou o primeiro cadastro de irrigantes
no País, não teve continuidade, o que é lastimável.
.......Ora, se o problema
tende a se agravar, atingindo contigentes populacionais
cada vez maiores; se é cíclico, portanto previsível,
o que estamos fazendo para equacioná-lo?
.......É de Hegel
a célebre afirmação de que os povos que desconhecem
sua história estão condenados a repeti-la. E pior,
como farsa.
.......Exemplos de
projetos bem-sucedidos não faltam. Israel aprendeu
a lição, e em pleno deserto implantou um oásis de
prosperidade. Certamente, os anos de safras nefastas
e o drama do filhos de Jacó recorrendo ao trigo
egípcio ensinaram-lhe o caminho.
.......De todos os
projetos globais desenvolvidos, sem dúvida os empreendidos
no Sri Lanka (país recentemente abalado pela tsunami),
pela ousadia e pioneirismo, é a mais marcante. Ali,
uma série de monarcas, a partir do século 6º a.
C., deixou uma obra monumental em termos preservação,
conservação e armazenamento de água. Revelaram-se
profundos conhecedores de hidráulica, projetando
sistemas de irrigação e drenagem que ainda hoje
garantem o suprimento de água à dessedentação humana
e animal, e à produção agrícola.
......."Nenhuma gota
de chuva que caia sobre esta ilha deve perder-se
no oceano sem antes ter servido à humanidade." Essa
era a regra de ouro do monarca Parakramabahu 1º
(1153-86).
.......Portanto, superada
a fase emergencial, de apoio às populações flageladas,
concomitantemente devemos partir para um planejamento
estratégico de curto, médio e longo prazos, não
só em nível federal, mas especialmente na região
Sul. Após a extinção da Sudesul, perdemos o rumo
nesse setor. A última grande ação de envergadura
na região (Procas), implementado no rescaldo das
estiagens que varreram a região Oeste nos anos de
1978/79. E que é contra a construção de barragens,
é bom que reflita sobre os bons exemplos, e são
muitos mundo afora.
.......As ocorrências
periódicas do problema nos ensinaram que temos que
fazer muito mais. Conhecimentos não faltam, muito
menos disponibilidade de recursos hídricos. Faltam,
sim, programas e projetos claros e bem definidos,
que sejam implementados de forma continuada, alargando-se
além dos períodos de estiagem.
.......Por fim, que
fique o registro: instigado por seu filho rebelde
Kahsyapa a revelar onde estava escondido o tesouro
real, Dhatusena, rei de Sri Lanka (século 5º), pediu
aos carcereiros que o levassem até Kalaweva - um
lago de 90 km de circunferência que mandara construir
e, tirando um pouco daquela água com a concha das
mãos, disse: "Nisto, meus amigos, se resume toda
a minha fortuna".
Onévio Antônio Zabot, engenheiro agrônomo,
Joinville
grj@epagri.rct-sc.br
20 de março
de 2005
http://www.an.com.br/2005/mar/20/0opi.htm
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