A
leitura da História suscita uma ilusão retrospectiva
de fatalidade, como se tudo estivesse escrito de
antemão. Chama-se a isto determinismo, a saber:
o processo histórico se regeria por leis que permitem
antecipar ou planejar cientificamente o futuro.
Tal concepção gerou no passado teorias de pessimismos
catastrofistas ou otimismos voluntaristas. Ora,
dá-se o caso que a ação histórica ocorre em conjunturas
únicas, singulares, irrepetitivas, sob pressão de
circunstâncias que os homens não escolheram – e
por isso são imprevisíveis. O chavão de que a História
é mestra da vida possui o nulo valor de todos os
chavões. Se a História ensinasse algo, os homens
não estariam sempre a cometer erros estúpidos e
trágicos. Descartado o determinismo, só nos resta
exercer o probabilismo: se não podemos prever o
futuro, pelo menos especulemos sobre ele.
Como
será o mundo após o 11 de setembro?
Apesar
de tudo, os EUA provavelmente continuarão a ser
a nação definidora do mundo moderno: no econômico,
no militar, no político, no cultural. O século 20
foi americano e este também se anuncia americano.
O que acontece nos EUA é um modelo, positivo ou
negativo, do que deve acontecer no resto do mundo.
Semana passada, o jornal Le Monde, que como tudo
que é francês desadora os EUA, proclamou em editorial:
“Nous sommes tous américains!” No final do século
20, os EUA viram-se vitoriosos no projeto estratégico
sustentado porfiadamente desde a II Guerra Mundial
de tornar-se a potência hegemônica do mundo. Um
projeto estratégico envolve não apenas forças e
interesses militares, mas, também, políticos, econômicos,
culturais. A hegemonia da Roma moderna adotou o
pseudônimo de globalização, inseparável da Pax Americana,
isto é, da condição de hiperpotência militar.
O
11 de setembro evidenciou que a máquina de guerra
mais poderosa ainda vista na História não é capaz
de defender seu território e seus cidadãos contra
um bando de energúmenos, em operação que um general
americano realisticamente classificou de “brilhante”.
O fato levou há dias o ex-senador Gary Hart a sentenciar:
“Os Estados Unidos não estão preparados, ofensiva
ou defensivamente, para os conflitos do século 21”.
São a maior potência militar do mundo, mas para
o século errado, acrescentou o ex-senador. Os conflitos
não são agora de militares contra militares, mas
de civis contra civis. No século 21, a guerra, se
assim se pode chamar, tem nova cara. O presidente
Bush admitiu isso ao dizer que esse é “um tipo diferente
de guerra”, o que não o inibiu de desencadear no
Afeganistão um bombardeio convencional. Pela primeira
vez na História, a autoproteção tornou-se a maior
das prioridades dos EUA. E a evidência de que a
capacidade militar do país não só não é infinita,
senão que vulnerável, repercutirá inevitavelmente
na utopia da globalização.
O
projeto estratégico da
hiperpotência vive sua
primeira grande crise
O
projeto estratégico da hiperpotência vive sua primeira
grande crise. No bojo da política de erradicação
do terrorismo global – meta que deve ser relativizada,
pois sempre houve e haverá fanatismo político e
religioso – o Estado americano intervirá através
de regulações e fiscalizações num dos pilares liberais
da globalização, a liberdade do capital financeiro
itinerante e volátil. O Estado americano já acode,
e cada vez mais acudirá o mercado em processo de
crise recessiva. As liberdades individuais padecerão
mesmo na sua pátria moderna, já sendo visíveis os
sinais da emergência dum Estado policialesco (os
serviços de inteligência voltarão a ser vitais,
como no tempo da Guerra Fria). Para consternação
dos neoliberais, o Estado está de volta, pela velha
e simples razão hobbesiana da necessidade de reforçar
a segurança da sociedade contra inimigos anônimos,
coisa que a tal “mão invisível” é incapaz de fazer.
Governos ficarão em toda parte mais poderosos e
mais intrusivos. Como se admite oficialmente que
a “guerra” contra o terrorismo será muito longa,
é de inferir que os EUA, depois da euforia e do
otimismo da era Clinton, viverão uma era de depressão
e pessimismo sob Bush. Como os EUA exportam para
o mundo o bom e o mau, já vemos o que nos espera.
Tampouco
no cenário político estritamente internacional as
coisas volverão a ser as mesmas. O unilateralismo
da política americana será decerto mitigado e o
mundo talvez torne a conhecer algum tipo de equilíbrio
multipolar. Em rigor o que assistimos é ao rescaldo
da Guerra Fria, visto que os EUA estão pagando o
preço de haver parido o diabo (talibãs e Bin Laden),
como tanto fizeram no quase meio século da Guerra
Fria – e reincidem agora ao aliar-se a um general-ditador
paquistanês, laureado terrorista na disputa por
Cachemira contra a Índia. Já que se falou em Guerra
Fria: talvez a História, velha dama que não prima
pela lógica e pela coerência, não nos poupe a ironia
de ver a Rússia como principal aliada dos EUA na
criação duma reordenada ordem mundial: a Rússia
já cogita de fazer parte da Otan.
História
é mudança – e isso significa que nada é definitivo.
O que não garante, claro, que a mudança necessariamente
venha a ser para melhor.
Zero
Hora
21/10/2001