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Crônicas 2002


Arnaldo Jabor

Vale a pena ver de novo a zona geral do Pa�s?

Meninos, eu vi... Eu vi as empregadas gritando, a cozinheira chorando, o r�dio dando a not�cia: "Get�lio deu um tiro no peito!"; eu, pequeno, imaginava o peito sangrando - como � que um homem sai da Presid�ncia para o nada?
Meninos, eu ouvi, anos depois, no estribo de um bonde: "O J�nio renunciou!" Como? Tomou um porre e foi embora depois de proibir o biqu�ni, briga de galo e de dar uma medalha para o Che,
eu vi a hist�ria andando em marcha � r� e eu entendi ali, com o J�nio saindo, que os bons tempos da utopia de JK tinham acabado, que alguma coisa suja e negra estava a caminho como um trem fantasma andando pra tr�s;
depois, meninos, eu vi o fogo queimar a UNE, onde chegaria o "socialismo tropical", em abril de 64, quando fugi pela janela dos fundos, enquanto o general Mour�o Filho tomava a cidade, dizendo: "N�o sei nada. Sou apenas uma vaca fardada!"
Eu vi, meninos, como num pesadelo, a popula��o festejando a vit�ria do fascismo, com velas na janela e ros�rios na m�o ;
vi a capa do O Cruzeiro com o novo presidente da Rep�blica de bon� verde, baixinho, feio, quem era? Era o Castelo Branco e senti que surgia ali um outro Brasil desconhecido e, a�,
eu vi as pedras, os an�ncios, os �nibus, os postes, o meio-fio, os pneus dos carros, como um filme de horror; eu, que vivera at� ent�o de palavras ut�picas, estava sendo humilhado pela invas�o do terr�vel mundo das coisas reais.
Depois, vi a tristeza dos dias militares, Brasil ame-o ou deixe-o, a Transamaz�nica arrombando a floresta,
vi o rosto pat�tico de Costa e Silva, a gargalhada da primeira perua Yolanda, mandando o marido fechar o Congresso,
vi e ouvi Jorge Curi na TV, numa noite imunda e ventosa de dezembro lendo o AI-5, o fim de todas as liberdades, a morte espreitando nas esquinas, a gente enlouquecendo e fugindo pela rua em c�mera lenta, criminosos na pr�pria terra; depois,
vi o rosto terr�vel do Medici, frio como um vampiro, com sua mulher do lado, muito magra, infeliz,
vi tudo misturado com a Copa do mundo de 70, Pel�, Tost�o, Rivelino e porrada, tortura, sangue dos amigos guerrilheiros her�icos e loucos, eu sentindo por eles respeito e desprezo, pela coragem e pela burrice de querer vencer o Ex�rcito com estilingues;
n�o vi, mas muitos viram meu amigo Stuart Angel morrendo com a boca no cano de descarga de um jipe, dentro de um quartel, na frente dos pelot�es, enquanto, em S�o Paulo, Herzog era pendurado numa corda e os publicit�rios enchiam o rabo de dinheiro com as migalhas do "milagre" brasileiro, enquanto as cachoeiras de Sete Quedas desapareciam de repente;
depois eu vi os �rg�os genitais do general Figueiredo, sobressaindo em sua sunguinha preta, ele fazendo gin�stica, nu, para a na��o contemplar, era nauseante ver o presidente pulando a cavalo, truculento, devolvendo o Pa�s falido aos paisanos, para n�s pagarmos a conta da d�vida externa,
vi as grandes marchas pelas "diretas" e vi, estarrecido, um micr�bio chegando para mudar nossa hist�ria, um micr�bio andando pela rua, de galochas e chap�u, entrando na barriga do Tancredo na hora da posse e matando o homem, diante de nosso desespero,
e eu vi ent�o a democracia restaurada pelo bigod�o de Sarney, o homem da ditadura, de jaquet�o, posando de oligarca esclarecido;
vi o fracasso do Plano Cruzado, depois eu vi a volta de todos os v�cios nacionais, o clientelismo, a corrup��o, a impossibilidade de governar o Pa�s, a infla��o chegando a 80 por cento num �nico m�s, meninos, eu vi as maquininhas do supermercado fazendo tlec tlec tlec como matracas f�nebres de nossa trag�dia,
eu vi tanta coisa, meninos,
eu vi a infla��o comer sal�rios dos mais pobres a 2% ao dia,
eu vi o massacre de miser�veis pela fome, ou melhor,
eu n�o vi os milh�es de mortos pela corre��o monet�ria,
n�o vi porque eles morriam silenciosamente, longe da burguesia e da m�dia,
mas vi os bancos ganhando bilh�es no over e no spread, d�lares no colch�o, a sensa��o de perda di�ria de valor da vida,
eu vi a decep��o com a democracia, pois tudo tinha piorado,
eu vi de repente o Collor vindo de longe, fazendo um cooper em dire��o a nosso destino, bonito, jovem, fascinando os ot�rios da na��o, que entraram numa onda pol�tica "aveadada", dizendo: "Ele � macho, bonito e vai nos salvar...",
eu vi o Collor tascar a grana do Pa�s todo e depois a na��o passar dois anos "de quatro", olhando pelo buraco da fechadura da Casa da Dinda, para saber o que nos esperava,
eu vi Rosane Collor chorando porque o presidente tirara a alian�a,
eu vi a barriga de Jo�ozino Malta, irm�o da primeira dama, dando tiros nas pessoas,
eu vi a piscina azul no meio da caatinga,
eu vi depois a sinistra careca de PC juntando o bilh�o do butim,
eu vi Z�lia dan�ando o bolero com Cabral em cima de nossa cara,
eu vi a guerra dos irm�os Collor, Fernando contra Pedro e, depois, como numa saga grega,
eu vi o c�ncer corroendo-lhe a cabe�a,
eu vi o impeachment,
eu vi tanta coisa, meninos, e depois eu vi, por acaso, por mero acaso, por uma paix�o de Itamar,
eu vi o FHC chegar ao poder, com a �nica tentativa de racionalidade pol�tica de nossa hist�ria num antro de fisiol�gicos e ignorantes e, a�,
eu vi a maior campanha de oposi��o de nossa �poca, implac�vel, sabotadora,
eu vi a inveja repulsiva da Academia contra ele,
eu vi a trai��o de seus aliados, todos unidos contra as reformas, uns agarrados na corrup��o e outros na sobrevida de suas doen�as ideol�gicas infantis.
E agora eu vejo o estranho desejo de regresso ao mundo do atraso, do erro e das velhas utopias.
Vejo a direita se organizando para cooptar a oposi��o, comendo-a ,
vejo um ex�rcito de oligarcas se preparando para a vingan�a,
vejo ACM, Barbalhos e Sarneys prontos para tomar o Congresso de assalto, para impedir qualquer mudan�a e voltar aos bons tempos da zona geral.
Meninos, voc�s viram tamb�m, mas acho que esqueceram.





 
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