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O gen�rico do software


14.Set.2002 |  Na �ltima semana, o candidato Jos� Serra se disse surpreso ao descobrir a exist�ncia de alternativas ao pacote Microsoft que bota o computador para funcionar. Pois no interior do pr�prio governo que representa, sem nenhuma discri��o, o Serpro est� preparando-se para largar a dupla Windows e Microsoft Office. Vai substitu�-los por GNU/Linux e um conjunto de programas chamado OpenOffice � ambos saem de gra�a. N�o � a �nica iniciativa. Nas prefeituras de S�o Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Campinas projetos similares est�o em andamento.

N�o � dif�cil fazer uma conta na ponta do l�pis para entender que economia � esta. O pre�o m�dio do Windows e do Office � de 1.000 reais. Ou seja, todo computador que usa ambos sai 1.000 reais mais caro. Partindo-se do princ�pio de que a generosidade da Microsoft os venda pela metade do pre�o, ainda � muito. Estima-se que no governo federal, hoje, existam 250.000 esta��es de trabalho. Se todas estiverem com seu Windows e Office legalizados ao pre�o de 500 contos, isto saiu por 125 milh�es de reais. (Serra garante que cada um milh�o de reais investidos na agropecu�ria valem 200 empregos.)

Entre o p�blico e o privado, o Brasil gasta, por ano, 1,2 bilh�o de d�lares em software.

�Se eu fosse fazer a migra��o para o Windows XP�, explica Jos� Henrique Portugal, diretor do Serpro, �gastaria 3,5 milh�es de reais.� O Serpro � o bra�o tecnol�gico do Minist�rio da Fazenda, incluindo-se a� o projeto que levou o imposto de renda � Internet. Cuida, pois, de 5.000 micros em todo o Brasil. Portugal � um t�cnico daqueles que escova microchip desde muito antes dos computadores pessoais aparecerem. V� tecnologia independente de sistema operacional ou quaisquer padr�es que por ventura estejam na moda. O importante, para ele, � m�quina funcionando e sob seu controle.

�N�o gosto de falar apenas desse aspecto da economia porque isso � minimizar a quest�o�, conta Marcelo Pimenta, diretor da Prodabel, Empresa de Processamento de Dados de Belo Horizonte. �N�s trabalhamos, aqui, com empresas locais para treinar o pessoal e para produzir software novo, gerando emprego e renda na cidade.� A Conectiva, uma empresa de Curitiba que montou uma vers�o brasileira do Linux, abriu escrit�rio na capital mineira. De dentro da universidade federal de l�, a UFMG, nasceu outra empresa, a Akwan.

Como a distribui��o do software livre � gratuita, s�o duas na pr�tica as maneiras de se fazer dinheiro. A primeira � fornecer treinamento, ensinar as pessoas a usar computador. A outra � desenvolver programas sob medida para as necessidades do cliente, por encomenda. Como a linguagem � universal, quem aprende a fazer programa em Belo Horizonte pode vender seus servi�os para o mundo inteiro. N�o h� limite.

Balan�a comercial

Para pa�ses como o Brasil, a quest�o do servi�o � o pulo do gato. De todo o dinheiro que o governo federal gasta com computador, apenas 4% corresponde a servi�o, uns 60% v�o para software e o resto para m�quina. E a� est�, novamente, o problema: as empresas que produzem software para a plataforma Windows s�o, quase todas, estrangeiras. � dinheiro que vai para fora. A op��o pelo software livre no ambiente p�blico diminui os gastos e inverte a equa��o, despejando dinheiro no pa�s, gerando emprego e permitindo, a m�dio prazo, exportar tecnologia.

N�o � � toa, ent�o, que o software livre est� sendo adotado nas cidades em que est�. Em Belo Horizonte, o forte departamento de ci�ncia da computa��o da UFMG contribui com c�rebros. Em Campinas, � a Unicamp. Em Recife, o tamb�m excelente departamento de inform�tica da UFPE e o p�lo tecnol�gico que nasce ao seu redor. Por a� vai. � uma resposta p�blica, de universidades p�blicas e dos poderes municipais. Ganhou o �mbito estadual apenas no Rio Grande do Sul, isto porque o atual governador foi prefeito de Porto Alegre.

Mas, curiosamente, a mentalidade pol�tica que permite esse in�cio de virada apareceu pela primeira vez numa federa��o sindical, a Fenadados � de t�cnicos de processamento de dados � no encontro fortuito entre o carioca Djalma Valois e o ga�cho Mario Tesla. Por volta de 1998, eles discutiram em Bras�lia o Linux e como ele estava ficando bom, como surgia como alternativa vi�vel ao Windows. Djalma voltou para o Rio e montou o Cipsga, Comit� de Incentivo � Produ��o do Software GNU e Alternativo. Tesla, licenciado do Serpro, foi juntar-se ao governo do Rio Grande do Sul, onde tratou de implantar no estado uma pol�tica eficaz de software gratuito.

A eles juntou-se um deputado federal baiano, Walter Pinheiro, do PT. Pinheiro redigiu um projeto de lei que obriga o setor p�blico a usar software livre sempre que existir a alternativa. Em casos de programas sofisticados como o CAD, por exemplo, que servem a engenheiros e arquitetos para desenvolvimento de plantas, s� comercial. Mas para a maior parte dos usos, seja reda��o de texto ou planilha eletr�nica, email ou navega��o na web, est�o l� dados para quem quiser. O projeto ainda tramita, e o lobby contra � forte.

Mas n�o por isso. Em Recife, um vereador petista pegou-o igualzinho e aprovou-o na C�mara Municipal. Em Campinas, foi um vereador tucano que fez o mesmo. E a iniciativa come�a a se espalhar. �N�o vejo limites�, conta empolgado Silvio Spinella, respons�vel pela tecnologia de Campinas, �em todos os lugares, em cada aplica��o, onde houver um programa alternativo ao software propriet�rio, n�s o utilizaremos.� Embora esteja no interior, n�o � uma cidade para se desprezar. � a terceira pra�a de compensa��es banc�rias do pa�s, a oitava economia.

Em todos os casos s�o iniciativas pioneiras ainda em estudo. Certas perguntas, como o que fazer com as m�quinas que j� tem o Windows instalado, n�o trazem resposta f�cil e cada um tem sua solu��o. Spinella, de Campinas, explica que est� fazendo �uma melhoria gradual, os computadores novos s�o carregados com software livre, os outros, com o tempo e conforme a demanda de licen�as venha surgindo, n�s atualizamos.�

No Serpro, as inten��es de Portugal s�o mais ambiciosas. A regional de Recife vem estudando Linux desde 1998. At� outubro, planeja fazer de todos os 162 computadores l� m�quinas rodando Linux. �Mas n�o tem sangria desatada�, explica. A inten��o � converter, se poss�vel ainda este ano, entre 1.000 e 2.000 computadores em quatro outras regionais. Se poss�vel. Se o treinamento demorar mais, n�o tem problema. Espera-se. No fim, a meta chega a 3.500 m�quinas. Seus motivos para a convers�o total s�o filos�ficos, � uma quest�o de dom�nio sobre a tecnologia.

Quando o governo usa um software propriet�rio, como � o caso do Windows, p�e-se nas m�os da Microsoft. Atualiza��es vem quando a empresa decide e os novos programas n�o funcionam com o sistema antigo. � uma aparente evolu��o mas, na verdade, no uso di�rio, n�o faz diferen�a alguma. � apenas uma estrat�gia para vender mais programas. �N�o podemos depender do fornecedor para decidir este ciclo tecnol�gico�, Portugal explica, �esta tem que ser uma decis�o nossa.�

Tanto o diretor do Serpro como os diretores das empresas de processamento de dados municipais que est�o fazendo a mesma convers�o s�o unanimes ao dizer que seu problema n�o � com a Microsoft. Se fosse outra no lugar dava na mesma. Partir para o software livre representa gastar menos dinheiro e ganhar controle sobre suas pr�prias decis�es, gerar emprego e conhecimento no pa�s, isso tudo sem abrir m�o de tecnologia de ponta. A propaganda da tecnologia passa ao largo.

Rio esvaziado

S� agora, com a cria��o pela prefeitura de S�o Paulo dos telecentros, � que a maior cidade do Brasil abra�ou tamb�m a iniciativa. Sobrou o Rio de Janeiro. Entre UFRJ, Uerj, Uff e PUC s�o quatro as universidades com importantes centros de inform�tica no estado, uma concentra��o que ati�a a inveja de qualquer outro canto perdido do pa�s, e no entanto os poderes p�blicos ignoram a alternativa. � verdade que na curta administra��o da governadora Benedita da Silva alguns passos foram dados neste sentido. Mas trata-se de um governo em campanha e com uma bomba de viol�ncia no colo. � um projeto esvaziado que conta, no m�ximo, com boa vontade.

� curioso, pois o Cipsga, onde nasceu a divulga��o do software livre, tem sede no Rio e uma pequena escola, localizada na Tijuca, para ensinar GNU/Linux. �Aqui essa coisa virou meio gueto�, se lamenta Djalma Valois. � de fato uma pena. Afinal, n�o se trata de substituir um monop�lio por outro, mas de constatar a op��o. O fato de ser gratuita n�o d� para ser ignorado.


pdoria@nominimo.ibest.com.br


20 de setembro de 2002


 
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