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Torres: a mais bela praia gaúcha
 
 



ESPECIAL SAINT-HILAIRE (1)

O litoral trai�oeiro

Valtamir perdeu a carga para o mar, mas pelo menos escapou com vida quando a baleeira Dom Filipi espatifou a quilha na barra do Mampituba (foto Genaro Joner/ZH)

        Numa ter�a-feira, 5 de junho de 1820, quando contemplava o mar arremetendo contra os penedos de Torres, Auguste de Saint-Hilaire teve a primeira vis�o do Rio Grande do Sul: os perigos do litoral e a pen�ria dos pescadores.

        � ... a costa � t�o baixa e de tal modo castigada pelas ondas, t�o perigosa para as pequenas embarca��es... � assinalou o franc�s no di�rio de viagem.

        Saint-Hilaire notou as armadilhas do mar ao conferir o andamento das obras do forte de Torres, em torno do qual nascia o povoado. Achou in�til assestar canh�es em dire��o ao Atl�ntico, imaginou que nenhum inimigo ousaria desembarcar numa costa varrida por ondas t�o impetuosas.

        Passados 180 anos, o mar bravio continua engolindo navios e pescadores. Uma v�tima recente foi a pesca de Valtamir Mattos dos Santos, 29 anos. Em outubro passado, a baleeira Dom Filipi, de 11 metros, espatifou a quilha num banco de areia ao entrar na barra do Rio Mampituba. A carga de 1,5 tonelada de corvina e cem quilos de garoupa foi devolvida ao mar.

        � Deu aquela paulada na quilha, abriu �gua e afundou � conta Valtamir.

        Os cinco tripulantes foram salvos, mas aparelhos de r�dio, navega��o e sonda, al�m de fog�o, motor e cem metros de rede foram tragados pelas ondas. Ainda em conserto, a embarca��o dever� sair do estaleiro somente no pr�ximo m�s. Valtamir a comprou em 1998, no lugar da casa pr�pria, porque desejava p�r fim a 10 anos como empregado de pesqueiros.

        � Seria a minha independ�ncia, mas fiquei com um preju�zo de R$ 9 mil � lamenta-se ele, pai de dois filhos.

        Naufr�gios espalharam danos e luto ao longo dos 622 quil�metros da costa ga�cha. Dalila Ferreira Joaquim, 43 anos, perdeu o pai, Ant�nio Alexandre, sugado pelo mar com mais quatro pescadores. Apenas um tripulante sobreviveu, abra�ado a um tonel vazio. O corpo de Ant�nio reapareceu sete dias depois, a 25 quil�metros de Torres. Hoje, Dalila apega-se � imagem de Nossa Senhora dos Navegantes sempre que os dois filhos, Emanuel e Leandro, de 18 e 22 anos, zarpam para alto-mar.

        � Fico com o cora��o na m�o � diz ela.

        Sobreviventes relatam que nem ex�mios nadadores resistiram � f�ria das �guas. Coletes salva-vidas tamb�m podem ser in�teis, se a v�tima n�o se desvencilhar das roupas, que aumentam de peso quando encharcadas. Francisco da Silva Matos, o Chic�o, 42 anos, de Tramanda�, foi arrojado ao mar com mais tr�s pescadores, quando a baleeira Fischer adernou, h� 15 anos. Agarrados a destro�os do barco, ele e um colega ag�entaram at� a chegada de socorro. Os outros desapareceram.

        � O falecido Paulinho era salva-vidas, mas n�o conseguiu... � lembra Chic�o.

        O mestre Luiz Carlos da Silva Marques, 34 anos, de Tramanda�, tamb�m assistiu � morte de um companheiro, atirado ao mar por uma onda que lambera o casario do barco. Marques jogou uma b�ia, mas viu o colega ser engolfado pela �gua.

        A faixa entre o farol de Santa Marta (Santa Catarina) e La Coronilla (Uruguai) � a costa retil�nea mais extensa do planeta. � um litoral baixo e plano, sem abrigos naturais e fustigado por ventos e ondas de at� cinco metros. Bancos de areia se movem na embocadura dos rios Mampituba e Tramanda� e do canal do Rio Grande, armando ciladas nos �nicos port�es aqu�ticos do Estado.

 


Na chegada, ped�gio para entrar em Torres

        Auguste de Saint-Hilaire chegou ao Rio Grande do Sul de carro�a. Atravessou o Rio Mampituba de barca, desgostoso por ter de pagar um ped�gio em Torres. Quase nada mudou. Hoje, para entrar em Torres com a charrete tracionada pela �gua Chiquita, a vendedora de ovos Leopoldina Rodrigues Silveira, 68 anos e 10 filhos, paga R$ 0,50 pela passagem de barca pelo Mampituba.

        � A carrocinha � a condu��o que tenho. � o meu governo � diz a catarinense.

        Em Torres, Saint-Hilaire sentiu-se �muito bem recebido� pelo comandante da guarita militar, alferes Manoel Ferreira Porto. A casa na qual teria se abrigado continua de p�, o n�mero um estampado na parede, numa cidade que agora tem 30 mil moradores. � ocupada pela costureira Maria Vitorino Machado, 55 anos, e um c�o fox enfezado.

        � � tranq�ilo para morar � diz ela.

        Saint-Hilaire contou ter escalado a mais alta das tr�s torres (o Morro do Farol) que comp�em o cart�o-postal do balne�rio. Gostou do �agrad�vel panorama�, que descortina o mar a 66 metros de altura. Hoje, a vis�o est� comprometida por edif�cios de at� 20 andares.

 


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