Turismo Marítimo Um Sonho a ser Realidade
Por: Sérgio Guilherme Gollnick - Arquiteto
leq@netville.com.br
A região mais histórica que tem relação
com o cruzeiro marítimo começou na região
mediterrânea. Alguns historiadores reivindicam que
a idéia de viajar dentro do mediterrâneo
começou exatamente a 130 anos atrás em 1867
quando o "Quacre City" de 1.700 toneladas ofereceu
um cruzeiro da América para a Europa e a Terra
Santa para 64 passageiros inclusive o famoso Mark Twain.
Mais tarde, em 1893, dois navios de linha regular do Oriente,
o "Chimborazo" e "Garrone" estavam
oferecendo cruzeiros sazonais aos países mediterrâneos.
Mas, provavelmente, o primeiro navio a ser construído
exclusivamente para viajar era o "Victoria Luise"
da Hamburg-América Line que em 1911 começou
viajando ao redor do mundo.
Ao falar sobre Turismo Marítimo, eu só estou
recorrendo a viajar e com a finalidade deste papel, não
considerando o iatismo, esporte de velejar, marinas, etc.
É importante também destacar que os cruzeiros
marítimos mais utilizados são os de viagens
curtas de 2 e 3 dias. Por isto e primeiramente, deveríamos
definir cruzeiro marítimo. Para mim um cruzeiro
marítimo seria definido como aquele em que o passageiro
passa pelo menos 24 horas em um navio. Também devemos
estar atentos às definições da indústria
turística.
Nos últimos anos houve um desenvolvimento considerável
no mercado de cruzeiros marítimos no mundo. E nós
não podemos esquecer que estamos em uma parte do
mundo que normalmente não recebe publicidade de
destinos de cruzeiros. Em uma recente viagem a Europa,
quando iniciava a temporada de verão (férias)
não encontrei nenhuma agencia de turismo com material
promocional do Brasil, porém farto material de
países da África, Asia, América Central
e do Norte.
Nem mesmo o câmbio tem sido usado como fator de
atração. Outros fatores que nos favoreceriam
como a instabilidade do oriente médio, destino
de vários turistas europeus, a temporada de furacões
no sul dos EUA, instabilidades na África e a superpopulação
na costa da Espanha e Itália tem sido aproveitada
para vender nosso potencial turístico. Fiquei sabendo
que Aruba gasta no Brasil em promoção do
turismo o mesmo valor que o Brasil gasta em promoção
do país no mundo todo. É claro então
que não é possível encontrar pacotes
para o Brasil nas agencias européias.
Bem, voltemos ao turismo marítimo. Vejam alguns
dados sobre cruzeiros no mundo. A parte oriental do Mediterrâneo
atrai quase 29 milhões de turistas todos os anos
e tem um produto de cruzeiro sem igual. Deste total, 1,7%
são passageiros de cruzeiros marítimos cuja
taxa de ocupação média é de
76%. Com mares tranqüilos, uma estação
longa, fascinando atrações culturais e ilhas
sem igual. Calcula-se uma demanda reprimida de 500,000
passageiros porque falta o dinamismo e inovação.
Veja um resumo anual deste mercado:
Número total de cruzeiros 1.178
Tipo
Cruzeiros Fretados: 362
Cruzeiros Regulares: 816
Para referencia, vejam o número de passageiros,
por nacionalidade, que viajam somente nesta região:
1. REINO UNIDO 140.000
2. ALEMANHA 110.000
3. E.U.A. 70.000
4. RUSSO 50.000
5. PAÍSES NÓRDICOS 35.000
6. CHIPRE 30.000
7. ITÁLIA 20.000
8. HOLANDÊS 12.000
9. FRANCÊS 10.000
10. ISRAEL 10.000
11. OUTROS 6.000
TOTAL 493.000
Venho colhendo informações desta natureza,
a partir do projeto do píer de passageiros de Itajaí,
procurando me aculturar mais sobre esta modalidade de
transporte e de turismo. Destas investigações,
tenho insistido sobre a potencialidade da indústria
dos cruzeiros marítimos e o fato que cada vez mais
as pessoas descobrem a beleza de viajar. Na primeira vez
que me deparei com a industria naval quando trabalhava
em um estaleiro, sempre me encantou a construção
de navios de passageiros. No final da década de
70, a estimativa era de que o turismo marítimo
alcançaria, no máximo, 1% do volume total
de turistas. O volume foi de 1,1% em 2000 e crescendo.
Hoje temos 800 milhões de turistas no mundo, dos
quais 8,8 milhões são passageiros de cruzeiros.
Deste total quanto o Brasil tem? Praticamente 1% de mercado
mundial com uma costa de 8 mil quilômetros e um
clima tropical. Só para ilustrar, em 1975 existiam
140 navios de passageiros com capacidade de 83.000 cabines,
em 1998 eram 240 navios e em 2001 já são
263 navios com 200.000 cabines. uma média de 5
novos navios e 4.700 cabines por ano. No momento estão
em construção 32 novos navios, dos quais
8 super navio para mais de 6.000 passageiros.
Fico pensando que o brasileiro, em especial o governo,
através da EMBRATUR, e o próprio trade turístico,
arrota que o Brasil tem inúmeras atrações
turísticas, e nós sabemos que tem, mas na
realidade vivemos um completo amadorismo no setor. Quem
está preocupado em atrair cruzeiros marítimos,
quem está ajudando a trazer a clientela nova e
oferecer tal um alto nível de satisfação
para o cliente? Enfim quem é responsável
por aumentar a porcentagem do mercado de cruzeiro? Se
nos basearmos pelo stand da Embratur na "SEATRADE"
realizado em Miami em março deste ano, podemos,
como diz o ditado popular, ensacar a viola. Uma vergonha,
amadorismo puro, falta de profissionalismo e tantos outros
adjetivos que me atrevo a dizer sem nenhum remorso. Trata-se
do maior evento mundial deste tipo de turismo e continuamos
a colocar duas mulatas com a bunda de fora como se isto
fosse a única coisa que o Brasil pode vender.
Para os entendidos, vale a pena dizer que o mercado de
cruzeiros é altamente concentrado, assim ele apesar
de crescer está saturado pelas mesmices. O turista
está procurando novos alvos, mas quer tranqüilidade,
conforto e uma boa dose de aventura (profissionalmente
preparada). Nós temos o alvo, estamos um pouco
mais preparados na parte de hotelaria mas falta muita
infra-estrutura e pessoas preparadas a oferecer o que
o cliente deseja. Como podemos descobrir o que fazer?
Vejo alguns "especialistas" do setor querendo
inventar a roda. Besteira, vamos lá fora apreender
como se faz, deixar de ser os sabidinhos.
Os produtos deverão ser preparados e postos nas
mãos de agentes de viagens no exterior que querem
novas alternativas, focalizar os esforços deles.
Utilizar o conceito de "Fly and Cruise" ou seja,
voe e navegue, conceito que dentro do Brasil ainda não
foi desenvolvida da mesma maneira como nos EUA e no Mediterrâneo.
Temos rotas de desejo como Manaus, Pantanal e Foz do Iguaçu
e um belo litoral que são pontos de interesse do
turista estrangeiro e são regiões em que
o avião é essencial. Casar vôos e
cruzeiros é uma forma de atrair novos turistas.
Mas não é de esquecer o turismo interno.
Os brasileiros gostam de mar. Cruzeiros rápidos
(2 dias), com atrativos como cassinos em alto mar e estadas
rápidas em locais badalados é uma boa opção
de encher navios. Na Europa este tipo de cruzeiro custa
em média US$ 200.00 por pessoa.
A perspectiva. Se o Brasil ou mesmo os países
do Mercosul desejarem beneficiarem-se de viagens marítimas,
eles precisam mudar a política existente e oferecer
a operadores locais muito mais apoio no campo da formação
profissional, da comercialização mas, especialmente
melhorar a infra-estrutura e oferecer vários incentivos.
No caso de Santa Catarina, o porto de Itajaí construiu
um terminal exclusivo para passageiros. Porto Belo deseja
o seu, São Francisco também, Florianópolis
idem. Não há problema nisto. Infra-estrutura
sempre é bem vinda, mas o que terá atrás
do porto para se oferecer ao turista? O porto por si só
não basta. O passageiro de um cruzeiro marítimo
tem de 6 a 12 horas para ser bem tratado em terra. O que
podemos oferecer que venha a ser um marco referencial
e permanente no calendário dos cruzeiros? Há
muitas alternativas, mas elas não devem ser elaboradas
exclusivamente para os passageiros dos cruzeiros, como
é comum. O passageiro do navio vive confinado enquanto
embarcado. Quando vai a terra, deve-se envolvê-lo
no "clima" do local, entretê-lo ao que
a região pode oferecer de forma permanente. Por
exemplo: um museu é um atrativo permanente.
Destaco novamente que viagens mais curtas vêm tornando
mercados mais populares. Um mercado potencial para este
tipo de cruzeiro é o cliente asiático que
tem como padrão de pacotes com muitos roteiros
em pouco espaço de tempo. Neste sentido sempre
é bom lembrar que na Ásia está emergindo
uma classe média de 500 milhões de pessoas
sedentas por novos "prazeres".
No exterior, prospectos muito bons deveriam ser preparados.
Há mercados muito bons para o ramo de cruzeiros
marítimos como o mercado alemão. Os alemães
são conhecidos como campeões de mundo em
viagem de férias. De acordo com um estudo feito
na Alemanha, existe uma demanda significativa para o que
se convencionou denominar de "URLAUB AUF SEE",
"Feriado no Mar". Especula-se entre os alemães
um novo conceito de navio que é o "navio clube".
O mercado de Reino Unido, por sua vez, é o mais
importante em termos de cruzeiro marítimos, mercado
este totalmente desprezado pelo trade nacional. Há
muitos outros a serem investigados. Basta para isto ter
planejamento, ser profissional e persistente.
Outra coisa importante é não elitizar o
cruzeiro marítimo. Para ser competitivo, você
tem que manter o preço acessível. Esta situação
trará clientes, obrigará a uma concorrência
e como resultado um maior número de cruzeiros.
As palavras do famoso autor grego Nikos Kazantzakis no
livro "Alexis Zorbas" ainda são muito
válidas: "Feliz é o homem que tem a
fortuna boa para velejar o mar..." Então vamos
nos esforçar para tornar realidade este sonho,
afinal, nós não devemos esquecer que este
negócio é o de vender sonhos.
leq@netville.com.br