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CARVÃO

CÍRCULO VICIOSO





Bio - ABES
ANO V
Nº 3
Mai Jun 1993

A região sul de Santa Catarina é composta por 38 municípios, abrangendo uma área de 9.550 quilômetros quadrados, o que corresponde a perto de 10 por cento do território do Estado, com uma população em torno de 800 mil habitantes. Nessa região predominam as atividades ligadas ao setor mineral, principalmente nos municípios de Criciúma, Içara, Siderópolis, Urussanga, Lauro Muiler e Orleans, do setor cerâmico e metal mecânico, setor agroindustrial e setor pesqueiro.

Dados levantados pela Fatma-Fundação de Amparo à Tecnologia e ao Meio Ambiente revelam que a situação é dramática, sobretudo na região carbonifera, uma área de cerca de 50 quilômetros confinada entre a Serra Geral e o Oceano Atântico, que hoje abriga doze empresas mineradoras (Tre viso, Metropolitana, Cricitima, Barro Branco, CBCA, CCU, Catannense, Ibramil, Cocalit, ICc, Rio Deserto e Nova Próspera). O conjunto de carga poluidora gerada pela lavra, beneficiamento, transporte e estocagem do rejeito da mineração, pelas unidades produtoras de coque, pela termoelétrica, pelas cerâmicas, pelas fecularias e pelo setor agroindustrial determinaram, já em 1980, a assinatura do decreto governamental 85.206, enquadrando a região como a 14a. Arca Crítica Nacional. De lá para cá, quase nada aconteceu em termos de medidas efetivas para minimizar os efeitos da poluição.

O Provida-SC-Programa de Recuperação da Qualidade de Vida da Região Sul de Santa Catarina, desde sua criação, em 1991, não significou uma reversão no triste quadro, como se imaginava. Ao contrário, em dois anos de existência ele não sensibilizou nem sequer seu maior acionista, o governo
federal, que deixou às custas do Estado, já tão endividado e com tantas obras por realizar, a execução de trechos dispendiosos.

Os mananciais de abastecimento público sucumbem às agressões de todos os níveis. Hoje já é insuportável a quantidade de ferro existente na água e a cada dia o tratamento vai ficando inviabilizado, exigindo recursos vultosos em caso de opção por métodos não convencionais. Os trabalhadores nas minas, que há aproximadamente cinco anos eram em torno de 12 mil, hoje estão reduzidos a 3,5 mil e muitos deles fariam opção, se pudessem mudar de área, pela indústria de confecção, em franco progresso, sobretudo no município de Criciúma, o principal da região, chamado pelos moradores de "capital brasileira do carvão". A incidência de pneumoconiose, conhecida vulgarmente como "câncer de mineiro", diminuiu, mas essa redução não significa que as empresas mineradoras já operem como em países de Primeiro Mundo. Os efeitos da inalação do pó do carvão continuam matando. Municípios e Estado apelam e a União continua indiferente.

O vice-governador de Santa Catarina, Antonio Carlos Konder Reis, coordenador do Provida-SC, cansado de aguardar por providências do governo federal e há um ano sem reunir o Grupo de Trabalho Interministerial, sob a coordenação da Secretaria Nacional de Saneamento, criado para definir as diretrizes do programa, tem auxiliado o governador Vilson Kleinubing a cobrar medidas efetivas da União. Em ofício ao então recem-empossado ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, propôs destinação de 50 por cento da arrecadação do Adicional Sobre o Frete Para a Renovação da Marinha Mercante (AFRMN) - 82 do decreto-lei de abril de 1990 - proveniente da importação do carvão metalúrgico, à execução de programas de recuperação ambiental em áreas da região sul catarinense, degradadas direta ou indiretamente, em razão da exploração, utilização ou transporte do carvão mineral, na forma de medida provisória.

Consta do ofício assinado pelo governador Kleinubing que, à época da proposta da criação do fundo com arrecadação do AFRMM, em 1991, a importação do carvão metalúrgico era estimada em 12 milhões de toneladas/ano e o valor correspondente ao respectivo adicional de frete alcançava 8,46 bilhões de cruzeiros/ano. Segundo Konder Reis, ainda que esse valor não fosse suficiente para atender ao custeio de todos os projetos constantes do Provida-SC, representaria, certamente, seguro penhor da execução dos projetos de recuperação ambiental.

"Entendemos mesmo que o que falta é vontade política para o governo federal decidir sobre a liberação de recursos para o Provida-SC. O governo de Santa Catarina está fazendo a sua parte e com dificuldade, utilizando parcos recursos, atua em várias frentes de trabalho, que numa visão macro transformam-se em parcelas muito pequenas de colaboração, já que as outras obras exigem recursos vultuosíssimos", garante Konder Reis. E emenda: "Ou o governo federal cria o mais breve possível esse fundo da Marinha Mercante e libera a primeira parcela de recursos previstos para o andamento do Provida-SC, ou do alto de sua responsabilidade responderá pela supressão do programa. A sociedade catarinense está a exigir uma posição clara sobre a questão, pois ficou uma enorme expectativa com relação à melhoria da qualidade de vida da região sul do Estado e até o momento só recebeu promessas".
Coordenador estadual do Provida-SC revela quais as realizações do programa com recursos do governo de Santa Catarina: levantamento hidroviário, bioquímico e biológico do complexo lagunar em convênio com o INPH-Instituto Nacional de Pesquisa Hidroviária, com participação da Universidade Federal de Santa Catarina e Unisul, dragagem do rio Tubarão e rio Seco (convênio União-Estado), dragagem de evolução do porto de Laguna (União-Estado), abertura da barra do Camacho (Jaguaruna), projeto executivo e Rima da barragem sobre o rio São Bento, em Criciúma, construção da adutora de água tratada de Criciúma, projeto de retificação do molhe sul da barra da Laguna (INPH-Estado), sendo que todos esses trabalhos estão em andamento.

As ações previstas: construção da barragem com comportas na foz do rio Congonhas, que desemboca na lagoa da Garopaba do Sul, dragagem da lagoa de Jaguruna e retificação dos canais do Amorim e Manequinha Tubarão, Laguna e Jaguaruna), despoluição dos rios Sangão, Mãe Luzia e Fiorita, também em convênio com a União e o Estado; recuperação das áreas degradadas pela mineração a céu aberto nos municípios de Siderópolis, Criciúma,
Içara e Forquilhinha (União-Estado); recuperação do porto de Imbituba e despoluição das lagoas Imarni, Mirim e Santo António, comprometidas pelo desativado lavador de Capivari, na estiva dos Pregos.

No dia 16 de junho passado, o vice-governador Konder Reis encaminhou ao Secretário Nacional de Saneamento, Antonio Marsiglia Neto, ofício solicitando a liberação imediata de 260 bilhões de cruzeiros, recursos inscritos e aprovados no orçamento da União, para serem aplicados imediatamente no Provida-SC. Nem mesmo a visita do ministro do Meio Ambiente Fernando Coutinho Jorge à região carbonífera, em 25 de junho, representou esperança de obtenção dos recursos a curto prazo.

Além de tudo, um complicador: uma ação civil pública movida pela Procuradoria da República em Santa Catarina pretende cobrar uma indenização da ordem de 110 milhões de dólares da União e de doze mineradoras de carvão para cobrir os prejuízos causados ao meio ambiente. A mesma ação quer ainda 15,5 milhões de dólares por danos pessoais causados aos 275 mil habitantes dos municípios onde o carvão é extraído.

Que carvão é esse? Para o presidente da ABES-SC, eng. António Rogério Inácio, o problema da mineração do carvão na região sul catarinense é ainda mais grave na medida em que o produto extraído, além de não ser renovável na escala da vida humana, é de baixa qualidade, sendo a mineração responsável pela geração de 12 milhões de toneladas de lixo tóxico por ano. "Isso significa o mesmo que cobrir toda a Ilha de Santa Catarina com montes de três metros de altura em dois anos de mineração. A região carbonífera é uma das mais degradadas do Brasil, perdendo apenas para Cubatão, em São Paulo, e a continuarmos convivendo com essa situação, a população não terá mais água tratada para beber", indigna-se.

Antônio Rogério garante que o governo e os políticos em geral, ao invés de denunciarem esse poder avassalador de destruição do carvão, ainda enfatizam a necessidade de acelerar o ritmo da mineração e buscar novos mercados consumidores. Em parte, a tese é corroborada pelo secretário de Planejamento da Prefeitura de Criciúma, Fábio Carpes, que orgulha-se em chamar sua cidade por "capital brasileira do carvão": "Não sou a favor da degradação e destruição, mas é importante que se diga que Criciúma, por exemplo, não tem a menor tradição turística e existe em função do carvão, embora controle hoje o setor cerâmico brasileiro e tenha uma das maiores indústrias cerâmicas do mundo, a Portinari. Também registra o franco desenvolvimento da indústria da confecção, além das atividades têxtil e calçadista, que já alcançaram renome no sul do Brasil. Mas tudo começou com o carvão e hoje somos conhecidos no Brasil inteiro como o maior produtor do mineral no País e isso, de algum modo, muito nos envaidece".

Fábio Carpes acredita que todo o comprometimento do meio ambiente na região sul catarinense está no passado e que a tecnologia utilizada pelas empresas mineradoras, hoje em dia, minimizou bastante a poluição: "De nada adiantará o município fazer grandes investimentos, ou mesmo o Estado, que tem seus orçamentos concentrados em outra atividade. Trata-se de uma questão que tem de ser resolvida pelo governo federal e a iniciativa privada. O que pode fazer, por exemplo, a prefeitura de Criciúma? Se aplicássemos toda a nossa arrecadação - hoje, em torno de um milhão de dólares - em programas de recuperação ambiental, levaríamos anos para resolver o problema. Também o Estado não pode abrir mão de sua receita com ICMS, pois ficaria em situação delicada. Compete à União liberar recursos".

O secretário de Planejamento de Criciúma considera que o caminho para o início de medidas saneadoras nunca esteve tão próximo e aberto como há um ano, aproximadamente. Fábio diz que "jamais teremos momento tão oportuno para enfrentar a questão com o realismo que ela merece e exigir recursos para resolução dos problemas, pois tínhamos fortes aliados como o ministro-chefe da Casa Civil, Jorge Bornhausen, a influência e o bom conceito à época do governador Kleinubing e o coordenador estadual do Provida-SC, Konder Reis, além de representantes da região sul na bancada catarinense na Câmara Federal. E mesmo com esse aparente poderio, o programa parece mesmo estar morrendo na casca".

António Rogério considera que o Provida-SC não passou até o momento de uma carta de intenções. E pergunta: onde estão os recursos do FGTS que deveriam ser aplicados no Provida em 1991 e 1992? Por que o governo japonês não emprestou, como havia se comprometido, os 115 milhões de dólares para serem aplicados no programa? Aliás, observa, quando e como a sociedade poderá participar do processo de recuperação sócio-ambiental da região? Segundo ele, as associações profissionais e movimentos ambientalistas querem sugerir alternativas de produção ecologicamente sustentáveis - "por mais limpa que seja a exploração do carvão mineral, hoje, ela continuará sendo um 'roubo' do ponto de vista de futuras gerações".
"No sul de Santa Catarina a atividade carbonífera estruturou a base econômica regional, gerou oportunidades, estabeleceu desafios, privilegiou minorias, mas irremediavelmente socializou a poluição e discriminou a qualidade de vida da população." A opinião é do engenheiro civil Édio Laudelino da Luz, técnico da Casan Cia. Catarinense de Águas e Saneamento, que em 1988 desenvolveu um estudo aprofundado sobre a conservação e preservação dós recursos hídricos no sul do Estado e conhece muito bem a questão da poluição pelo carvão.

Segundo Édio, sob o aspecto de saúde pública, a região carbonífera detém os piores índices de Santa Catarina, haja vista a completa ausência de sistemas de esgotos sanitários nos aglomerados urbanos e ainda a proliferação da pneumoconiose conhecida como "câncer do mineiro". Para ele, os métodos adotados por empresas públicas e privadas na mineração do carvão jamais levaram em conta a matriz ambiental da área, bem como a preservação do solo, saúde pública e os impactos nos recursos hídricos.

"A maneira como a extração do carvão foi projetada transcendeu o sistema biótico e manifestou perdas sensíveis na sócio-economia de Cricúma, Tubarão, Laguna e outros municípios adjacentes. As perdas são contabilizadas financeiramente pela inviabilidade dos mananciais para abastecimento público. A concentração iónica resultante da oxidação auto-sustentável dos elementos químicos agregados ao carvão drenado aos rios impossibilita o tratamento da água por processos convencionais. E como as indústrias poderiam operar sem a matéria-prima água, indispensável a qualquer bem de consumo?", analisa Edio.

A Casan terá de investir aproximadamente 15 milhões de dólares somente em Criciúma para tratar da água de seu único manancial. Contudo, não poderá transferir seus custos para a tarifa. O custo operacional do tratamento dispara por conta do acréscimo dos produtos químicos, consumo de energia, aumento da adução e regularização de vazão. Rios importantes do complexo hídrico local, tais como Mãe Luzia, Araranguá, Urussanga e Tubarão, estão irremediavelmente contaminados pelo carvão.

"Se por um lado o avanço tecnológico das últimas décadas mostrou competência no ganho do conforto, por outro sub-verteu a harmonia e o equilíbrio necessário entre o homem e o meio ambiente regional. Há na região carbonífera um conflito estabelecido entre a lógica do ganho do capital obtido pelo carvão e a percepção dos danos ambientais causados e denunciados", acusa Édio. Na sua avaliação, uma medida tem de ser tomada imediatamente: avaliação criteriosa dos resultados econômicos na produção de energia, de modo a justificar as perdas impostas ao meio ambiente, além dos recursos hídricos fundamentais para o desenvolvimento regional.

Antônio Rogério Inácio salienta que a maior preocupação da ABES-SC é com relação ao abastecimento de água da região sul. "A situação já é caótica e, para os municípios entrarem em estado de calamidade pública, basta uma estiagem prolongada, pois a Casan divide o único manancial em condições de utilização com os rizicultores de Criciúma e imediações. Não bastasse, para fazer a barragem do rio São Bento, outra alternativa de solucionar o problema (prevista inclusive no Provida), será necessário deslocar 60 famílias de agricultores na região, tarefa por certo bastante difícil. "Já passamos do prazo de adotar medidas. O prazo foi ontem. Temos de atacar alguma frente de trabalho, sob pena de nos defrontarmos com uma questão insolúvel" , analisa Antônio Rogério.

O despejo de metais tóxicos no leito dos rios da região carbonífera já registrou números estarrecedores. Entre 1979 e 1984, havia dezoito casos de anencefalia, numa proporção de um caso para dois mil nascimentos. A literatura prevê no máximo um caso para 20.000 nascimentos. Há mais de dez anos vem se constatando a presença de elevados teores de ferro nas zonas lacustres, que hoje atingem a índices insuportáveis, prejudicando sensivelmente a indústria pesqueira. Para se ter uma idéia do prejuízo, em 1976 cada pescador capturava em média 15 quilos de camarão nas lagoas lmaruí, Mirim e Santo Antônio -- hoje, não se chega a capturar dois quilos. Não há dados mais recentes sobre o comprometimento das lagoas e dos rios de abastecimento público, mas as projeções indicam que a região carbonífera alcançou o último limite de tolerância.

E os órgãos de fiscalização e controle da poluição? Ehzabeth Amin Viecelli, gerente de Projetos Especiúis da Fatma-Fundaçáo de Amparo à Tecnologia e ao Meio Ambiente - órgão governamental - não admite ouvir que a instituição onde atua é omissa. "Podemos ser chamados de desestruturados, podemos ouvir que somos lentos nas ações por falta de recursos técnicos e financeiros, mas omissos não 50mos", diz. Química, há doze anos atuando na instituição, Elizabeth garante que já chegou a embargar mina e, apesar dos enormes protestos, deixou de dar Rima a empresas mineradoras que não queriam obedecer às regras estabelecidas em contratos.

"O básico a gente está tentando fazer, embora temos muitas dificuldades estruturais. Os mineradores hoje são obrigados a instalar circuitos fechados para efluentes líquidos, estações de tratamento físico-químicos dos efluentes dos resíduos piritiosos, esses representando a maior ameaça hoje nas minas a céu aberto."

Elizabeth Amin considera muito difícil, com os poucos recursos existentes, tratar dos quase 3.200 hectares de área degradada da região, até porque, segundo ela, a legislação ambiental aprovada em 1981 permitiu ações mais efetivas de combate aos poluidores, mas era tarde demais pelos estragos feitos anteriormente. "Portanto, vamos partir para o que temos à nossa frente hoje e buscar alternativas que obriguem as empresas mineradoras a enxergarem com uma visão mais criteriosa os efeitos nocivos da exploração do carvão e, a partir dai, minimizar o problema. E preciso, antes de mais nada, escolher zonas prioritárias de ação e cuidar da parte dos recursos hídricos, sem dúvida a questão mais importante. Com o início das ações se estudarão macromedidas que agora não são aconselháveis", finaliza.


Bio - ABES
ANO V
Nº 3
Mai Jun 1993

CARLOS DE CARVALHO NETO

Entrevista - Jornal do Crea - 1986
Entrevista - Jornal da ABES - 1991
Revista Expresso - Junho/93

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